Entrevistas

Peixe: “O mais difícil, em termos de performance, é estar sozinho em palco”

Depois do lançamento do primeiro álbum a solo, “Apneia”, Pedro Cardoso está de volta com um novo disco, “Motor”.

Depois do lançamento do primeiro álbum a solo, “Apneia”, Pedro Cardoso – ou Peixe, como é conhecido – presenteia-nos com um novo disco, “Motor”. O membro fundador dos Ornatos Violeta e diretor da OGBE, Orquestra de Guitarras e Baixos Elétricos, continua, em “Motor“, a aventura musical iniciada em “Apneia”, apresentando-nos um disco que transparece o seu crescimento e maturidade enquanto guitarrista a solo. Em conversa com o Palco Principal, Pedro Cardoso desvenda a história do seu nome artístico e revela-nos como é estar em palco na companhia de uma guitarra.

Palco Principal – Pedro Cardoso, Peixe para os amigos… Somos pessoas curiosas e descobrimos que nasceste a 12 de fevereiro… Fomos falar com a Maya e chegámos à conclusão que, afinal, não és peixes de signo… Então, porquê Peixe e não tubarão? Polvo? Ou até mesmo o teu signo, aquário?

Peixe – (Risos) É alcunha da escola secundária, a Soares dos Reis. Lá começaram a chamar-me assim. Já tive outras alcunhas, mas, por volta do 7º/8º ano, alguém se lembrou de me chamar Peixe. Não sei bem porquê, mas acho que tem a ver com o meu perfil… Tenho um perfil que parece um peixe! De repente, toda a gente me começou a chamar Peixe – são daquelas alcunhas que ficam! Como os Ornatos eram um grupo de amigos de escola, eles também me chamavam assim. Quando fiz o “Cão!”, o primeiro disco dos Ornatos, assinei como Peixe, porque era como eu era conhecido, e ficou!

PP – Fizeste parte de uma das mais importantes bandas portuguesas de sempre, os Ornatos Violeta. Quando arrancaste com o teu projeto a solo, não te sentiste como um “peixinho fora de água”? 

Peixe – Sim, senti-me um bocado peixinho fora de água! (Risos) Ainda me sinto um pouco, porque tocar a solo é mesmo muito diferente de tocar em grupo. Quando se toca em grupo, sobretudo sendo guitarrista, uma pessoa está menos exposta do que quando está a tocar a solo. Quer se queira quer não, a atenção, quando se toca em grupo, vai mais para o vocalista – é a pessoa que está mais exposta. Penso que não será assim tão difícil para o vocalista como é para um instrumentista, quando está a tocar a solo. Acho que o mais difícil que há, em termos de performance, é estar sozinho em palco: exige muita concentração e é um mundo completamente diferente. Não há aquela química, não há a própria energia dos músicos que, às vezes, faz com que o nervosismo e outras desconcentrações possam ser ultrapassadas. É difícil, é complicado, mas faz parte… É uma coisa com a qual eu tenho que lidar. Esse lado não me agrada muito… Sinceramente, até é um bocado angustiante, mas, por outro lado, o facto de tocar a solo agrada-me! Mas isto não quer dizer que eu não continue a gostar de tocar em grupo, e tenho até algumas saudades disso, mas acho que é uma experiência importante que nos faz descobrir coisas sobre nós próprios, sobre aquilo que somos capazes de fazer.

PP – Na tua biografia podemos descobrir, além dos Ornatos Violeta, outros grandes projetos, como os Pluto, Zelig, a OGBE, da qual és diretor… E ainda participas em bandas sonoras para peças de teatro e cinema! Conta-nos lá: onde vais buscar a energia e a vontade para continuar a dar vida a Peixe?

Peixe – De certa forma, o que eu faço, agora, a solo sempre fiz. Estes dois discos a solo são o resultado da minha prática de tocar guitarra. Eu toco guitarra todos os dias e as coisas vão saindo. O que acontece é que, normalmente, eu aproveitava as ideias que iam saindo para as desenvolver em conjunto; levava-as para os ensaios e tentava desenvolvê-las com os grupos. A partir do momento em que deixei de ter grupos, ou comecei a ter mais grupos, fui, cada vez mais, acumulando ideias e sentindo-me mais capaz de as desenvolver sozinho, de usar a guitarra para criar ideias com princípio, meio e fim, só no meu instrumento. Comecei a desenvolver as peças a solo, mas, no fundo, são o resultado da minha criatividade na guitarra, que é uma coisa que sempre existiu. Se calhar, não existia muito era a capacidade para ser performer a solo ou para conseguir desenvolver uma coisa a solo, mas, neste momento, acho que sinto alguma maturidade nesse lado, nessa posição, e também como intérprete.

PP – Em “Motor“,  “ressuscitaste” algo perdido no primeiro disco, “Apneia”?

Peixe – Não existe muita relação, são dois títulos isolados. Apesar disso, o “Motor” é uma sequência óbvia, natural, do “Apneia”, embora o título não tenha relação. Mas sim, é uma continuação, ou seja, ambos resultam da minha vontade de materializar uma certa maturidade de composição, que eu acho que já tenho, no instrumento em que sempre trabalhei. Portanto, ambos os trabalhos resultam dessa vontade. Quanto ao título, não tanto. No “Apneia”, a palavra apneia tem a ver com a capacidade de não respirar, de suspender a respiração, e eu escolhi-a porque o primeiro disco está cheio de suspensões de respiração: ouve-se perfeitamente eu a respirar e reparei nisso! Há alturas em que estou em apneia – por isso é que se ouvem, volta em meia, inspirações e expirações um bocado descontroladas, ou profundas. É uma coisa que acontece bastante quando estou a tocar e daí ter adotado esse nome. Neste caso, o “Motor” tem mais a ver com duas coisas: uma é o facto de, em termos de execução, em termos físicos, digamos assim, este disco ser mais exigente, acho eu, do que o “Apneia”. Acho que está num nível mais acima. Não foi uma coisa consciente, foi natural, e não o torna melhor do que o outro. Não acho que a música que é tecnicamente mais exigente seja melhor do que a de técnicas mais simples. Alias, uma das músicas que eu mais gosto neste disco, “Motor”, é a primeira música, “Acordar”, que é muito simples de tocar, se calhar a mais simples, e é a que eu gosto mais… Mas tem a ver com isso, com esse lado da motricidade, com esse lado da execução, que é, de facto, um bocado mais complicado. Por outro lado, é a ideia de que a música – e, neste momento, a guitarra e a minha criatividade como guitarrista são o meu “motor” de vida – é aquilo que me faz andar para a frente e ter motivos para continuar a caminhar. Nesse sentido, é isso. É como se aquele disco fosse uma espécie de motor para o meu percurso atual. É um bocado por aí.

PP – Todas as músicas presentes neste segundo álbum são instrumentais. Nunca sentiste a necessidade de adicionar voz aos teus temas?

Peixe – A possibilidade de adicionar voz é a mesma do que adicionar qualquer outro instrumento. Eu não escrevo letras. Naturalmente, não faço canções, apesar de gostar muito de canções. Acho que para isso é preciso escrever e ter alguma coisa para dizer. Não é uma coisa que me saia naturalmente. Para fazer uma canção, eu teria que encomendar uma letra a alguém, digamos assim, e pedir a outra pessoa que a cantasse. Então já era uma coisa mais artificial, já era uma coisa menos intuitiva…E não é isso que eu faço – o que eu faço é pegar na guitarra e começar a tocar, a compor; é isso que me é natural! No entanto, não quer dizer que eu não use voz, mas tanto posso usar voz, como clarinete ou um piano… Eu sei que as pessoas estão muito habituadas a que a música tenha voz – parece que é quase obrigatório -, mas não vejo a coisa dessa forma. Para mim, música são sons organizados e sequenciados, é só isso. Eu posso usar uma voz como posso usar o ruído de um camião a passar. É som! Alias, neste disco usei flauta em duas faixas: são dois duetos, duas valsas. Tenho um amigo, que é o Nico, que toca muito bem flauta e lembrei-me que isso podia resultar muito bem. Experimentámos, funcionou bem e ficou assim! Amanhã posso lembrar-me de convidar um vocalista para cantar alguma coisa, se fizer sentido, mas a probabilidade é a mesma de convidar qualquer outro instrumentista.

PP – Já tiveste a oportunidade de tocar em grandes salas de espetáculo, como o Coliseu do Porto ou a Casa da Música, por exemplo, mas também em ambientes mais íntimos… Qual destes meios de atrai mais?   

Peixe – Sinceramente, a solo ainda não toquei muito. Não tenho assim muita experiência – ainda não toquei em grandes salas nem em espaços grandes. Eu gosto de tocar em auditórios pequeninos. Também ainda não toquei em auditórios grandes, mas imagino que funcione melhor – acho que é uma coisa um bocado intimista, uma música introspetiva, não sei… Acho que funcionará melhor em sítios pequenos. Se calhar, auditórios pequenos será o sítio que mais me agrada, por uma razão: porque, quando toco em bares ou coisas do género, às vezes gera-se um burburinho e por acaso é uma coisa que me tem dado um certo gozo. Quando estou a tocar, sobretudo em espaços que não são auditórios, ao fim de algum tempo consigo estabelecer silêncio total na plateia e isso é uma coisa que me dá confiança. Mas, às vezes, sinto que é um bocado deslocado, mas varia muito de espaço para espaço. A minha vontade de tocar guitarra a solo em público foi surgindo à medida que eu ia tocando num bar de um amigo meu. Era aqui no Porto, mas já não existe. Eu fiz uma espécie de acordo com ele, que era: “Olha, quando me apetecer tocar guitarra em público, eu vou tocar ao teu bar, mas não é anunciado nem nada. Pode ser? Claro!”.  E então comecei a fazer isso e normalmente eram improvisações. Era um bar onde havia barulho e foi assim que a coisa acabou por começar, em que eu me percebi que tocar a solo era interessante e me dava gozo. Era um barzinho pequenino, o que não era, de todo, o ambiente ideal, no entanto funcionou bem… É tão relativo, mas, de uma forma geral, o que me dá gozo é tocar em pequenos auditórios. Gosto disso! (Risos)

PP – Sozinho com uma guitarra, é complicado captar a atenção das pessoas?

Peixe – Às vezes, no tal bar, era complicado. Mas aquilo era tão informal, eu não estava mesmo preocupado, era uma coisa muito experimental para mim. É engraçado porque, quando estou a improvisar, não me chateia tanto… Como é que vou explicar… É outro tipo de concentração: não tenho que estar concentrado para repetir exatamente uma coisa e não me enganar; estou, simplesmente, à procura de coisas. É muito mais livre, posso parar, posso fazer tudo o que me apetecer. Outras vezes, conseguia, de facto, atrair a atenção das pessoas. Tenho boas memórias desses momentos! Ainda há pouco tempo estive a tocar em Londres e também estava um bocado assustado, estava tudo num burburinho enorme e eu estava com medo de não conseguir criar o ambiente de concerto. Mas tenho um truque: começo a tocar muito baixinho, super baixinho… E então as pessoas que estão interessadas, mas que não conseguem ouvir nada, começam a diminuir o volume e a pedir às outras pessoas para não fazerem barulho. A partir do momento em que se consegue instalar silêncio, a coisa permanece. É um indicador de que, de alguma forma, estás a conseguir comunicar com as pessoas, senão não conseguias criar isso. Mas não é fácil! (Risos)

PP – Existe algum músico português com quem gostasses de trabalhar mas com quem ainda não tenhas tido oportunidade de colaborar?

Peixe – Tenho a sorte de já ter trabalho com alguns músicos que admiro imenso. Em 2013, penso eu, trabalhei com o Carlos Bica e com a Joana Sá. Tive o prazer de tocar com eles num concerto meu e foi muito, muito fixe, porque eu sou mesmo fã deles! Aqui no Porto, tenho o prazer de trabalhar com o Nico, com o António Serginho, com o Eduardo Silva, que são músicos incríveis! Portanto, muitos dos músicos que eu admiro, já trabalhei com eles. Mas há um músico que eu acho genial e de quem sou mesmo fã, com quem eu nunca fiz nada e que, um dia, gostava de convidar para alguma coisa, que é o Mário Laginha. Tenho uma admiração muito forte por ele, acho-o um músico fabuloso e uma pessoa muito simpática, muito acessível. Simpatizo muito com ele. É uma pessoa com quem eu acho que gostava de trabalhar, um dia, de convidar para fazer alguma coisa. Acho que, em algum momento, irá acontecer! (Risos)

PP – E algum guitarrista que admires e que uses como inspiração para o teu trabalho?

Peixe – Sei lá, ouço tanta coisa! Ultimamente, tenho ouvido mais música instrumental. Gosto muito do Marc Ribot, que é um guitarrista. Gosto bastante do John Zorn, que é um saxofonista compositor… Ele tem algumas coisas de que eu não gosto, sobretudo o “cobra”, que é uma espécie de jogo musical inventado pelo Zorn. É muito engraçado, o conceito é muito interessante, jogar esse jogo é muito engraçado, mas o resultado musical não me agrada muito. Mas há coisas do John Zorn que eu acho fabulosas. Recentemente, descobri um grupo, Dawn of Midi – um trio de contrabaixo, bateria e piano. Fiquei também fã! Ultimamente, tenho ouvido imenso esse disco, que é uma espécie de cruzamento entre o Jazz, a música minimal repetitiva e o transe psicadélico… (risos) Acho que, ritmicamente é mesmo, mesmo muito interessante! Vario muito nas coisas que ouço: há dias, estive a ouvir as Variações de Goldberg, outra vez, tocadas pelo Glenn Gould, que é uma das coisas que revisito muitas vezes. Também gosto de ouvir Shostakovitch, que é um dos meus compositores de música clássica favoritos. Ouço muitos guitarristas, também: tenho ouvido Jim Campilongo, que toca com a Norah Jones. Ele tem um projeto a solo que é muito interessante. Entre outros, entre muita coisa! (risos)

Catarina Soares

Fotografias: Adriana Oliveira

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IOL Música

March 24th, 2015

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