Entrevistas

Moonspell: “Não somos uma banda que acha que já está tudo conquistado”

Com mais de vinte anos de carreira, a banda regressa com um novo álbum, que considera “mais fresco” e “um pouco diferente” dos anteriores.

Com mais de vinte anos de carreira, os Moonspell voltam a presentear os fãs com um novo álbum, que consideram “mais fresco” e “um pouco diferente” dos trabalhos anteriores. “Extinct” leva-nos, como o próprio nome indica, à extinção, mas também a uma escrita menos ficcional, mas não menos profunda, e com significados que vão além da palavra que dá o nome ao disco. Fernando Ribeiro, vocalista da banda, esteve à conversa com o Palco Principal e explicou-nos um pouco o conceito por detrás de “Extinct”, que chegou às lojas no passado dia 6 de março.

Palco Principal – Com “Extinct” já à venda, qual é a vossa expectativa relativamente a este novo álbum?

Fernando Ribeiro – A expectativa de um músico é sempre algo um pouco difícil de lidar. Ao longo de todos estes anos temos conseguido contar a nossa história nos discos e temos conseguido expressar-nos. Para nós, o “Extinct” é um álbum muito especial nesse sentido, porque notamos um empenho diferente da banda. Existe uma musicalidade diferente e um movimento ascendente da nossa evolução, enquanto músicos e escritores de canções. Mas, quando um disco é colocado no mercado, a forma como é entendido já não depende de nós. Portanto, a nossa expectativa é sempre conseguir passar bem a nossa mensagem. Claro que as expectativas são sempre boas porque trabalhámos muito para isso. Neste momento, temos muitas datas marcadas, damos imensas entrevistas, as críticas têm sido ótimas, mas a expectativa é sempre confusa. Isto, porque não somos uma banda que acha que já está tudo conquistado e que as pessoas vão sempre adorar um disco.

PP – O disco, na ótica da banda, pode conseguir transmitir bem a mensagem, mas, por algum motivo, o público pode não recebê-la… Já aconteceu com os Moonspell?

FR – Sim, já aconteceu. Não de uma forma massiva, claro, caso contrário não estaríamos aqui a falar… (risos). Mas existem discos que vendem mais e discos que são certos para as alturas certas. E nós temos um bocadinho essa expectativa. Desde o título à música, passando pelo manifesto. Além do facto de termos, também, um álbum um pouco diferente, mais fresco. E que chega numa altura em que a música, até no nosso próprio estilo, se tornou mais previsível e aborrecida.

PP – Explica-nos um pouco todo o conceito por detrás de “Extinct”. Em que aspetos se diferencia mais dos trabalhos anteriores?

FR – Existem continuidades e temos de falar nelas. Não fazemos um disco e depois outro que já não tenha nada a ver. Mas, por acaso, quando as pessoas ouvem os nossos trabalhos, até os consideram bastante diferentes entre eles. Nós é que conseguimos ver melhor aquilo que os une. Para o “Extinct”, o conceito, que de alguma forma se torna musical, foi contar uma história que tem uma continuidade. Para mim, a temática associada ao fim [de algo] tem sido muito importante. Desde 1999 que me tenho centrado um pouco nela. E tem também um bocado a ver com a minha infância e adolescência. Nasci em 1974, época de Guerra Fria, do perigo associado de uma guerra nuclear, e de todo um conjunto de filmes pós-apocalípticos. E isso foi sempre uma grande influência. No “Extinct”, a diferença é que deixei de fazer tanta ficção e de trabalhar muito em criaturas imaginárias. Comecei a escrever um pouco mais sobre mim – o que também faço sempre com alguma modéstia. Toda a pesquisa realizada para este trabalho levou-nos a um titulo: “Extinct” – extinto, que também tem um significado maior. É ele, a extinção das espécies. E encontrei diversos pontos de contacto entre a ciência, entre os cientistas que trabalham na preservação das espécies, e a perda pessoal. Ou seja, as perdas associadas ao nosso percurso de vida, como as pessoas que nos abandonaram, as perdas por desamor, por morte, os sítios que eram importantes para nós e que agora já nem sequer existem… E, aos 40 anos, começamos a pensar um pouco mais sobre tudo isto. Algumas coisas já não voltam, estão extintas. E o álbum foca, também, um pouco a luta constante no quotidiano, para manter essas memórias vivas e preencher esse vazio.

PP – Para produzir este álbum, escolheram Jens Bogren, que já trabalhou com bandas como Paradise Lost, Opeth ou Arch Enemy… E optaram por gravá-lo na Suécia. Por alguma razão em especial?

FR – O Jens é um nome já muito conceituado no metal, apesar de ser mais novo do que eu. E a Suécia também tem uma cultura muito efervescente de metal e de muitas bandas. E este disco era também sobre sair um pouco da zona de conforto, tanto musicalmente como também a nível de produção. Para fazermos um disco assim, soube desde o primeiro momento que tínhamos de mudar muita coisa. O último disco tinha sido gravado quase de forma caseira, à exceção da bateria. Este álbum foi mesmo gravado de forma old school, com a banda toda a trabalhar durante 35 dias na Suécia, a viver como uma família, a pensar sobre música e completamente concentrada neste disco. Mas trabalhar com um produtor novo é sempre um tiro no escuro. Se calhar, em alguns estilos de música, e até mesmo no metal, as pessoas planeiam trabalhar com certos produtores. E eu resolvi trabalhar com o Jens, não por ele já ter trabalhado com esses nomes – apesar de ser um excelente profissional –, mas porque o apanhámos numa encruzilhada. Ele estava um pouco farto de produzir bandas como essas e procurava algo que fosse desafiante musicalmente. E contribuiu muito pessoalmente para o disco. Por exemplo, a ideia de juntarmos uma orquestra turca a um tema, e que resultou muito bem, foi dele. E isso para mim é que é um produtor.

PP – Como é que surgiu o primeiro contacto? Já se tinham cruzado, alguma vez?

FR – Escrevi-lhe. Nunca deixo isso nas mãos de managers, nem agentes, nem ninguém. É a nossa música e é uma coisa pessoal. Ele conhecia a banda e até gosta dos nossos primeiros álbuns, que são, curiosamente, mais góticos. Enviei-lhe um email, onde lhe explicava tudo da maneira mais simples e mais artística. Não falámos de valores, nem de nada. Só lhe disse: ‘Queremos gravar um disco e estamos com um som um bocado diferente. Gostamos do teu trabalho, mas, acima de tudo, também te queremos desafiar a fazer um disco destes’. E ele estava mesmo disposto a isso. Era mesmo um disco mais próximo do que ele tencionava fazer. Desta forma, esta produção tornou-se numa surpresa bem-vinda para ele. Foi mesmo uma coincidência, que acabou por ser feliz. Passadas duas semanas já estávamos a trabalhar.

PP – Destacas algum tema em “Extinct”? Existe alguma música tenha, para ti, um significado especial?

FR – Há sempre (risos). E é sempre muito complicado fazer essa escolha porque somos uma banda que não trabalha na lógica de singles, mas sim na lógica de álbum. Tentamos fazer com que as canções sejam todas especiais, também para terem vida própria. E, para nós, a melhor parte é, sem dúvida, ouvir o álbum todo e escolher o alinhamento das músicas. Respondendo à questão: Gosto muito da primeira, “Breath (Until We Are No More)”, especialmente depois da adição da orquestra russa. Sentimos mesmo que levámos a nossa música a um outro nível. A outra é a “The Future Is Dark”, que é uma música muito mais íntima, muito mais pessoal, que nunca pensei conseguir fazer com os Moonspell. Não é de puro metal, é uma música que escrevi como uma carta ao meu filho, para o precaver do futuro, que é dark, negro. E ele irá ler quando tiver idade para isso.

PP – Relativamente ao artwork… O que nos têm a dizer?

FR – Foi feito por um amigo nosso, que é grego. É um artwork forte, onde tentamos passar o outro lado da historia do “Extinct”. Nós vemos o artwork como obras que podem, e devem, incluir outras expressões. E, realmente, a palavra extinct não é um titulo muito light. Tem uma certa amargura. Nunca poderíamos contar essa amargura se colocássemos uma foto da banda na capa do álbum. O Seth Siro Anton consegue misturar muito bem o horror e a beleza, e foi por isso que o quisemos a fazer o artwork desta capa. O “Extinct” é um álbum sobre imperfeição – uma imperfeição que, muitas vezes, nos é alheia. É muito importante, para nós, não termos limites nestes aspetos. Sei que muitas bandas os têm, ora porque o público vai dizer isto ou aquilo, ou não vai gostar. E, se vais pensar que o público não vai gostar, é porque também não é o teu público. O nosso aprecia e identifica-se. É um artwork fascinante, difícil, mas também é o tipo de arte que eu gosto: Tem impacto mas harmonia ao mesmo tempo.

PP – Entretanto, a par do álbum, lançaram também o documentário “Road To Extinction”, realizado por Victor Castro. Foi um bónus para os fãs?

FR – Foi, acima de tudo, um bónus para nós. Temos muitos discos mas só um DVD ao vivo, e muitos videoclipes. Nunca tínhamos lançado um documentário. E, nos últimos anos, têm vindo a surgir muitos documentários sobre música, bem feitos. E nós pensamos: Porque não? Este disco é especial, estamos com uma dinâmica de banda diferente, e a nossa ideia foi logo ir comprar umas câmaras e filmarmos umas coisas. Mas, quando pensei um pouco melhor no assunto, considerei que, em vez de investir em câmaras, o melhor seria apostar num profissional. Por isso, falei com o Victor Castro, que já trabalhou connosco num vídeo. E o resultado foi muito bom. Ele conseguiu captar a banda de uma forma verdadeira. Assim, conseguimos que os fãs cheguem a nós de um modo mais íntimo. Ficam a conhecer a forma como fazemos a música, como a discutimos e como passamos horas à volta de pormenores que são tão simples. Portanto, passou de um bónus de 20/30 minutos, que íamos dar aos fãs através da Internet, para um documentário de 80 minutos.

PP – Que podem os fãs de Moonspell esperar dos concertos de apresentação do novo álbum?

FR – Em Portugal, temos duas datas marcadas – 27 março no Coliseu de Lisboa e 28 no Hard Club, no Porto –, que fazem parte de uma tournée, a “Road To Extinction”, que tem o mesmo nome que o documentário. Esta tournée começa na Holanda, passa um bocado por toda a Europa, e termina na Alemanha. Depois, estamos 15 dias em casa e vamos para a Cidade do México a 24 de abril. A 19 de maio vamos para os Estados Unidos. Depois, pretendemos anunciar mais datas. Estes concertos de Lisboa e Porto vão ser diferentes, especiais. Estamos a tocar em casa, com um repertório diferente. Logo, vai ser uma festa de apresentação do álbum, feita em tournée. E o espírito também é replicar um bocado o que fizemos no disco: ir para cima, ter mais, mostrar mais e transmitir uma maior exuberância. Vamos começar na Holanda, por isso, quando chegarmos a Portugal, vamos estar completamente em forma.

Tatiana Branco

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IOL Música

March 10th, 2015

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