Entrevistas

A Jigsaw: “Somos eternos aprendizes da nossa arte”

A dupla coimbrense já conta com 15 anos de história e apresenta-nos agora o seu mais recente álbum, “No True Magic”.

A dupla coimbrense, formada por João Rui e João Silva, já conta com 15 anos de história e apresenta-nos agora o seu mais recente álbum, “No True Magic”, onde junta ao lado negro da mortalidade retratado no disco a voz feminina da norte-americana Carla Torgerson (vocalista dos The Walkabouts). Em entrevista ao Palco Principal os A Jigsaw falam-nos do conceito escolhido para este quarto álbum, do seu processo de criação, e sobre o novo projeto com Pedro e os Lobos, Encontramento.

Palco Principal – O nome do vosso grupo é a Jigsaw. Consideram-se um verdadeiro enigma?

A Jigsaw – Maior enigma são as pessoas em si. Por conseguinte, os grupos compostos de pessoas não poderiam evitar ser um enigma. Assim, nesse sentido, a resposta teria que ser afirmativa.

PP – Três anos após o lançamento do último álbum, surge “No True Magic” e, com ele, “a aceitação dos termos da nossa mortalidade”. Porquê um conceito tão misterioso para o álbum?

AJ – Para nós será mais negro do que misterioso. Tudo depende também de como se encara a mortalidade. Isto irá variar, necessariamente, de pessoa para pessoa.

PP – A mortalidade sempre foi uma questão sensível, por vezes até tabu, mas vocês abordam-na sem complexos nem caminhos emaranhados… É um desafio?

AJ – Tanto o é que foi um álbum que demorou três anos a ser escrito. O tema da mortalidade pode ser um grande desafio, dependendo do quão fundo estejamos dispostos a ir dentro do nosso coração para encontrar respostas.

PP – São já 15 anos de a Jigsaw. A vossa evolução enquanto músicos transparece, na vossa opinião, em “No True Magic”?

AJ – É natural que assim seja. Nem serão tanto os anos a ser os responsáveis, mas sim a experiência acumulada através da gravação dos nossos três álbuns anteriores. Em qualquer arte que haja necessidade de atenção ao detalhe, minúcia, a experiência, se for bem aproveitada, irá dar frutos. Portanto, é natural que a nossa evolução enquanto músicos transpareça neste álbum, que cremos ser o nosso melhor até à data. E, também por este raciocínio, esperamos que o próximo seja ainda melhor, porque levaremos a experiência adquirida com este. Somos eternos aprendizes da nossa arte.

PP – Ao ouvir “Gates of Hell”, por exemplo, imagino-vos a tocar numa antigo bar, no velho Oeste, sob uma neblina sombria que paira, também, sobre um grupo de senhoras que dança e agita os seus velhos vestidos, com várias camadas de tecido. Qual foi o processo de criação deste tema em particular?

AJ – Para este tema em particular, decidimos que iríamos revisitar uma narrativa iniciada na canção “Devil On My Trail”, do nosso álbum anterior, “Drunken Sailors & Happy Pirates”. Nesse tema, o protagonista falava da sua perseguição. Neste decidimos dar a voz ao diabo, para que ele falasse da sua visão em relação a essa perseguição. Esse foi o mote para o trabalho lírico da canção. Depois, foi uma questão de decidir qual a estética musical a ser empregue e escolher o melhor vestido para esta narrativa.

PP – Como surgiu a oportunidade de trabalhar com a norte-americana Carla Torgerson?

AJ – Esta oportunidade surgiu da nossa vontade de a ter como atriz num dos nossos temas. Decidimos escrever uma canção cuja narrativa incluísse um papel feminino que apenas poderia ser representado pela Carla. Assim, criámos a canção “Black Jewelled Moon”, tendo sempre em mente a voz e expressividade da Carla, mas sem saber se algum dia ela iria ouvir a música ou se, ouvindo, iria aceitar o nosso convite. Finda a composição da canção, entrámos em contacto com o Chris Eckman (vocalista dos Walkabouts, dos quais a Carla faz parte), que nos passou o contacto da Carla. Explicámos-lhe a ideia da canção e qual o papel que ela iria representar. Para nossa alegria, a Carla aceitou o nosso convite e gravou a voz dela no Wakatake Studio, do Glenn Slater, em Seattle. Foi um sonho com quase 20 anos concretizado, já que foi em 1995 a primeira vez que ouvimos a voz da Carla, num dueto com os Tindersticks.

PP – Tendo todo o trabalho apresentado pelos a Jigsaw uma grande ligação com a literatura, pergunto-vos: que artista português mais vos inspira, mais serve de inspiração ao processo criativo da banda?

AJ – Ainda que existam diversos artistas portugueses que nos inspirem, o que mais nos inspira será, necessariamente, o Fernando Pessoa. Sem dúvida alguma.

PP – Encontramento é o nome do projeto que mantêm com Pedro e os Lobos. Como nasceu esta parceria? Já era uma ideia de longa data?

AJ – Esta foi uma ideia que começou a florir na altura em que o Pedro Galhoz me convidou para escrever a letra de uma música de Pedro e Os Lobos. Correu de tal forma bem que começámos a pensar nisso. E, como o universo musical de ambas as bandas tem tantos pontos de contacto, decidimos concretizar este “Encontramento” nesta tour conjunta que estamos a levar a cabo. É algo que estamos habituados a fazer quando estamos em tour fora de Portugal, mas por cá não existe tanto esse hábito de haver este tipo de “encontramentos”. É um desafio extremamente interessante, tanto para os músicos envolvidos como para o público, porque acabamos por nos irmos imiscuindo nos temas uns dos outros. E são momentos únicos no palco.

PP – Desta união já temos o tema “Volta à morte”. No futuro serão apresentas novas canções? Um longa-duração, quem sabe, ou “Volta à morte” vai continuar a ser filho único?

AJ – Isso é algo que vamos todos ter de esperar para ver. Contudo, já temos ideia de compor algumas canções neste espírito de Encontramento. Não temos é ainda datas para a sua apresentação. Mas nãos nos surpreenderia um irmão ou uma irmã para esse tema. Há temas que não se querem como filhos únicos e outros que preferem solidão. Veremos que tipo de filho(a) será.

 

Catarina Soares

http://musica.sapo.pt/noticias/entrevistas/a-jigsaw-em-entrevista-somos-eternos-aprendizes-da-nossa-arte
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March 25th, 2015

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